Cheguei em Rotterdam no começo da noite de um domingo em Setembro. Minha primeira aula seria na manhã seguinte. Não tinha como pegar um trem de Frankfurt que chegasse a tempo para a aula, então a solução foi ir um dia antes e já dormir em Rotterdam.

Assim que cheguei, mesmo já sendo dez da noite, claro que fui até a The Old School ver onde eu seria treinado. A The Old School é a escola de barbearia que pertence à Schorem, considerada uma das melhores barbearias do mundo. É onde eles ensinam o jeito deles de ser Barbeiro.

A Old School fica em uma esquina bem em frente à Schorem, pois ocupa o ponto antigo da barbearia, que teve que se mudar para um lugar maior. Não cabia todo mundo no ponto original, mas era um ponto lindo, de esquina e com uma arquitetura ímpar. A Schorem se mudou e a The Old School abriu em seu lugar.

Os dois lugares estavam obviamente fechados. Mas lá dentro, tanto da Schorem quanto da Old School, as luzes noturnas estavam acesas. Dava pra namorar tanto a barbearia quanto a escola ali da rua mesmo, encarando os vidros, com letreiros pintados à mão. As cadeiras Belmont restauradas, os infindáveis quadros pendurados na parede. Havia uma elegância sutil, mas fundamental.

Para um cara que romantiza demais as coisas, ficar ali de pé, prestes a iniciar uma jornada única, foi emocionante. Ali estava eu, em outro continente, sozinho. Tinha medo, ansiedade e muita gana de mostrar que eu conseguiria aprender aquele ofício, pois estava na melhor condição possível para isso.

No dia seguinte acordei cedo demais, comprei um suco de laranja e um croissant no supermercado e fui pra frente da Old School. Era tão cedo ainda, que ninguém estava por lá. Aos poucos meus professores chegaram, assim como outros alunos que nem eu.

No primeiro dia de aula, você recebe uma bolsa com o material que irá usar no curso. Veio de tudo, de clipper (como vou chamar a máquina de corte a partir daqui) até pincel de barbear.

O Nellis, que era barbeiro na Schorem antes de ser o então diretor da Old School, passou item por item, explicando como e quando iríamos usá-los. Explicou que a primeira parte do curso seria focada em barbear apenas, ninguém ia cortar cabelo por uns meses. Apenas barbear.

Aí entrou o Fabian, outro barbeiro que trabalhava na Schorem e agora dava aulas na Old School, e fez o que chamamos de “demo”, um corte de cabelo comentado, em que o Fabian vai contando a história da Schorem, da Old School, sua relação com o mundo da barbearia e o que ele estava pensando enquanto fazia aquele corte ali na nossa frente.

Muita informação, muita história boa. E eu anotando tudo, imaginando como seria começar a fazer aquilo que eles estavam me mostrando.

Pausa para o almoço, daí voltamos. Nos separamos em grupos e o Fabian ficou como professor da minha turma, de cinco pessoas. Naquela tarde ele iria demonstrar como barbear alguém da forma clássica na navalha. Eu estava com medo e empolgação no mesmo nível.

Aí no final da sua demonstração de barbear, Fabian disse “amanhã é a vez de vocês fazerem isso”. Desacreditei. No segundo dia já iria barbear alguém? Eu nem tinha barbeado a mim mesmo com uma navalha antes. Não tem um exercício antes? “Não, eu te guio passo a passo”, me disse Fabian. “É como ensinamos nossos barbeiros”.

Nellis distribuiu os clássicos jalecos da Old School para os alunos e deu o primeiro dia como encerrado.

Era uma segunda, a Old School funciona mas e a Schorem não abre nesse dia, então peguei minhas coisas e voltei pro Hostel. Tentaria dormir o máximo que pudesse, para me preparar para o dia seguinte. Para fazer o primeiro barbear da minha vida.