Mudanças grandes exigem um bocado da gente. Mesmo infeliz, estava habituado ao meu trabalho como publicitário, anterior à Barbearia. Foi meu ganha-pão desde os tempos de faculdade, me proporcionou ir de Belém para São Paulo antes mesmo de me formar. Quase uma década nessa.

Quando a oportunidade para mudar de vez para Frankfurt apareceu, abracei. Sabia que perderia a minha carreira pois São Paulo é uma coisa, uma capital no norte da Europa é outra.

Enviei currículos e portfólios em inglês para todas as agências de publicidade que encontrei em Frankfurt. Não tive resposta alguma. Língua errada, experiência invalidada, vazio e silêncio. De novo, sabia que provavelmente seria assim. E a ideia de trocar de profissão já me acompanhava há muito. 

Em Frankfurt, comecei a trabalhar como entregador de comida, de bicicleta. Alguns meses disso, enquanto procurava algum curso técnico que conseguisse fazer com o meu alemão horrível.

O tempo foi passando, o inverno do norte da Alemanha é uma treta para um paraense. Troquei o trampo de entregador para um de chapeiro, em um burger. Pelo menos não precisava pedalar na chuva gelada.

Todos os cursos locais que procurei exigiam coisas que eu não tinha, acabei não entrando em nenhum. Já estava me acostumando com a vida de cozinheiro quando a Schorem me voltou à cabeça. Aquelas lembranças que já comentei aqui. Entrei no site da The Old School Barber Academy, sorri largo ao ver que na descrição dos cursos, havia a possibilidade de fazer o curso em Inglês. Tava ali o caminho que procurava.

Só faltava saber se eu queria mesmo ser Barbeiro. E se eu seria capaz de ser um. Ainda tinha o lance de ir para Rotterdam.

Rotterdam fica a 455 km de distância de Frankfurt. É uma viagem de trem de umas quatro horas. Bate-e-volta impossível. Mas o curso era apenas alguns dias da semana. Podia trabalhar em Frankfurt por alguns dias, pegar o trem e ir fazer as aulas em Rotterdam. O curso tinha duração de seis meses.

Entre me inscrever no curso e o começo das aulas, ainda tinha alguns meses. Passei muitas horas pesquisando sobre Barbearia, tentando entender o que me esperava. Sabia que o principal estava garantido: eu seria capaz de ganhar dinheiro com as minhas próprias mãos. Isso já me dava uma paz, mesmo que tivesse um calhamaço de incertezas.

Tive muita insegurança nesse tempo. O cérebro te trai, desfoca. Ficava pensando na enorme quantidade de dinheiro gasta no curso, curso esse sobre algo que nunca pensei antes. Nunca sequer tinha tocado em uma tesoura de cortar cabelo. Em que eu tinha me metido?

Calma. Comecei a pensar assim: se a Schorem é considerada a melhor barbearia do mundo, era como se eu fosse aprender a jogar bola no Barcelona.

Não tinha como dar errado. Ficava pensando nisso tal qual mantra. E tudo foi se acalmando. O cara tem que olhar um pouco antes de saltar, mas não olhar por muito tempo. Larguei as infinitas pesquisas sobre Barbearia.

Ainda lembro de preparar a mala, comprar a passagem e ficar na plataforma esperando o trem. Não sabia como seria o curso, se eu seria capaz de acompanhar as aulas. Sabia nada. Todavia, me sentia leve. Empolgado.

Hora de saltar então.