A primeira vez que entrei em uma barbearia foi em São Paulo aos vinte e um anos. Li sobre a Barbearia 9 de Julho em algum site e decidi: próximo corte vai ser lá. Na época eu pagava uma fortuna para ir em um salão perto de casa, na Vila Madalena.

Nunca fui muito de ir ao cabeleireiro. Durante a adolescência deixei a juba crescer infinitamente, só pra evitar de ter que ir a um salão. Não gostava da experiência, nunca conseguia um estilo que me agradasse. Preferia um rabo-de-cavalo constante. Até porque andar de cabelo longo solto em Belém era torturante.

Cortei o cabelo curto pela primeira vez quando cheguei em São Paulo, pra encarar a minha nova vida. Pedia sempre um corte bem bagunçado, “pra nem ter que pentear”. Quatro meses depois, fazia o corte de novo. Nem tinha pente em casa. Era secar na toalha e dar aquela alinhada Strokes.

Nessa época eu nem cogitava ser Barbeiro.

Principalmente porque na primeira vez que entrei na Barbearia 9 de Julho da Augusta, os barbeiros pareciam super-heróis. Rockabilly bombando nos falantes, barbeiros que me receberam como amigos. Cortes afiados saindo pela porta.

Nem sabia pedir um corte para um Barbeiro na real. Cometi o famoso “faz o teu corte em mim”, apontando para o corte do Barbeiro que iria me servir. Ele tinha um low fade crocante. Nem sabia o que era um fade. Pedi tsmbemt um topete, que sabia o que era (referências que me vinham às cabeça na época: Elvis, Johnny Bravo).

Toma goma laca, cabelo pro alto e sucesso. Aperto de mão e até logo. Pronto. Eu não iria mais cortar o cabelo em um salão.

Alguns meses depois de ter sido convertido ao Lado Barbearia do mundo do cabelo, tive dois contatos que meio que plantaram a ideia de que ser Barbeiro seria muito massa. E talvez impossível.

O primeiro foi aquele vídeo do skin fade da Schorem. Aquele com o cliente que tem umas tattoos no rosto. Foi a primeira vez que vi um Barbeiro emulando tempos passados, com uma alma atual. Ele se vestia todo de branco, mas era coberto de tatuagens. O cliente também. 

No vídeo era o Rob trabalhando, um dos donos da Schorem. Anos depois ele foi um dos meus professores de Barbearia, na The Old School Barber Academy.

O segundo contato foi em uma visita à Barbearia Realli, para fazer um corte com o próprio. Nas paredes da sua pequena loja de duas cadeiras ali em Perdizes, eu vi um pôster da Schorem pendurado. Passei muito tempo analisando esse pôster, me perguntando quem eram aquelas pessoas, quem eram os barbeiros deles.

Aí o Realli mandou: É uma Barbearia em Rotterdam, na Holanda. Esses caras no pôster são clientes deles mesmo. Eles até fazem a própria pomada.

Ah vá!

Hoje em dia eu até já cortei o cabelo de um dos caras do pôster. E já fui modelo em show da Schorem.

Esses dois contatos ficaram marcados na minha mente, por me mostrar que há ia alguém no mundo tratando Barbearia como uma arte singular. E que eles eram punks até o osso. Outra coisa que percebi: cara, não vou conseguir ser um Barbeiro assim. Esses caras são talentosos, escolhidos, predestinados. Que chance tinha eu?

Naquela época, achava que nenhuma.