Não queria trabalhar em um escritório para sempre.

Aos dezessete, comecei meu primeiro estágio, na Secretaria de Cultura do Pará. Em alguns meses, a rotina já me apertava o pescoço lentamente. Aquela sensação de que é isso: minha vida vai ser e-mails, almoxarifado, RH, contra-cheque e trimestres após trimestres de metas e entregas.

Apesar do mata-leão constante na alma, o mundo adulto corporativo me pareceu o melhor caminho a seguir. Por mais que no fundo, eu não quisesse trabalhar daquele jeito.

Todavia, trabalhar era necessário . Não tinha muita escolha, na real. Eu era um privilegiado, isso sim. E em um escritório, haveria conforto, salário “decente” e um certo status. Havia segurança em trabalhar no mundo corporativo.

Tanto que, aos vinte anos, antes de de formar, me mudei de Belém para São Paulo para trabalhar em um escritório. Tinha aceitado que era isso mesmo, essa vai ser a minha vida profissional, ou “carreira”. Melhor começar logo. Pau na máquina, ferro na boneca

Aos 25, passava mais tempo viajando online, pensando em um outro trabalho, do que realmente trabalhando. Tive o privilégio de experimentar várias posições e projetos dentro da minha area. Mas nada me parecia ser o trabalho que eu quisesse fazer por uma vida inteira.

Passava horas assistindo vídeos bem-editados no Vimeo de carpinteiros japoneses fazendo chinelos, sapateiras italianas fazendo sapatos do zero à mão, barbudos da Califórnia preparando cervejas com ingredientes bizarros, mecânicos mexicanos construindo motos, chefs dinamarqueses plantando e colhendo os próprios temperos no quintal do restaurante, monges coreanos fazendo kimchi, ciclistas britânicos tecendo as próprias roupas.

Anos assistindo vídeos de pessoas, artesãos, trabalhando com as mãos, imaginando a satisfação que eles sentiam ao ver o seu trabalho ali, completo. Para mim, dava pra ver essa satisfação no rosto deles, naqueles vídeos.

E o meu trabalho, que há anos eu fazia, não tinha um final, não me dava a mesma sensação. Não tinha aquele momento de orgulho. Cada entrega só gerava mais entregas, cada projeto encaixava em outro, depois outro, depois outro.

Um trampo infinito, dia após dia. Porém: privilégio tê-lo. De dia, sonhava em aprender a fazer um outro trabalho. Largar tudo e virar barman, barbeiro, marceneiro, eletricista. De noite, fritava de ansiedade.

Trabalhar, mas longe do mundo corporativo. Esse era o objetivo.

Não consegui alcançar esse objetivo em São Paulo. Foram nove anos de horas longas, reuniões e e-mails a serem respondidos no final de semana. Passei seis anos seguidos sem tirar um mês completo de férias.

Mas tudo e todos me indicavam que estava tudo bem, eu estava fazendo o que precisava fazer. O errado era eu. Tudo tava certo. Carreira à milhão. Um homem de sucesso. Tinha até prêmios pra mostrar.

Já tinha resignado a viver essa vida mesmo, de nota fiscal, banco de horas, festa de fim de ano e puxa-saquismo olímpico. Tanta gente ralando pra carai pra ter isso tudo e eu ali, desmerecendo, definhando, querendo jogar fora.

Cheguei aos 28 anos. Parecia que ia ser essa a minha vida mesmo.

Mas aí me mudei para Frankfurt e várias portas se abriram de uma vez. Não tinha como ser mais cínico. De repente, tudo que me impossibilitava de mudar de profissão sumiu. Era só eu e a estrada. Era o momento. Pensei que era coisa de filme, mas ali estava: a chance que eu tanto queria. Recomeçar.

E decidi ir pela estrada da Barbearia. Esta é a minha história até agora.